Charlie Bird(s) Park(er)s e as bibliotecas Públicas de New York

A hora de fechamento da Biblioteca Pública da Praça Tompkins, no East Village, se aproximava. Tentando entrar, correndo, quase fui atropelada pela senhora que saía, cabelos desgrenhados e olhos vazios. Na mesa de recepção dos leitores, onde dois funcionários jovens conversavam, ao perguntar pela Feira de Editoras Independentes, para onde me dirigia, recebi uma resposta meio mal-humorada, seguida de uma consulta ao relógio na parede: “Ah, o pessoal da Seção Hispânica! Lá embaixo, no porão. Elevador `a frente, lado esquerdo”. Um menino, no limite da obesidade, entrou conosco no próprio, onde logo expressou estupor ao perceber que o elevador desceria.  Escafedeu-se correndo, como se fôssemos uma assombração.

 
Edf
 

Não me lembro de ter tido uma recepção tão inesperada ao estar lá pela primeira vez, no dia 12 de maio 2016, quando o escritor brasileiro José Luiz Passos trocou suas experiências sobre “poética” com a artista plástica venezuelana, Patricia Van Dalen, ambos com excelente atuação. Aquele evento, incluído na série “Poética/ Poetics”, teve a curadoria das poetas Ana Rusche (brasileira) e Mercedes Roffé (argentina). Esta última, com sua editora (Ediciones Pen Press) estava presente na Small Press Exhibition, para a qual eu chegava – atrasada - no último sábado. Nele estiveram também Alan Felsenthal (ed. The Song Cave), Tej Hazarika (ed. Cool Grove Press) e Val Vinokur (ed. Poets and Traitors). No stand desta última, descubro o livro Education by Windows, do poeta Johnny Lorenz, também tradutor e professor de literaturas de língua inglesa, na Montclair U., a universidade estadual de New Jersey. No miolo do volume, que contém poemas de sua autoria, estão suas traduções da obra do poeta brasileiro Mário Quintana. Comprei o livro por conhecer a poesia e seu autor, meu companheiro no livro Luso-American Literature (2011, Rutgers UP). Nesse livro, os poemas de Lorenz (304-8) se seguem ao meu conto “Cowboy Music” (304-3).

Em Education By Windows / Educação [feita] pelas Janelas, Lorenz trata o tema da sua ascendência brasileira e seu consequente bilinguismo, transformando-os em estímulos poéticos. Numa crônica anterior, mencionei o nome da nossa pomba rola, ou rolinha, surpreendida de que, em inglês ela seja considerada como uma pomba enlutada, cantando, permanentemente, o sua tristeza. Johnny Lorenz trata do tema no poema “Mourning Doves Meter / O Metro da Pomba Rola”, incluído no livro (16-17).

Começando com a dificuldade de um falante bilingue em perceber sons muito semelhantes entre uma língua e outra, Lorenz brinca, na primeira estrofe, com a oposição “morning / manhã x mourning / luto”, palavras foneticamente quase indistintas, em inglês: “I thought it was a morning dove / because in the morning I would wake / to the bird’s sullen spondee.” Em tradução literal: “Eu pensei que era uma pomba manhã / porque, de manhã, eu acordaria / para o soturno espodeu do pássaro”.

Depois de duas estrofes, com outros exemplos dessa dificuldade, Lorenz volta ao tema da pomba rola ou pomba de luto: “In my inacuracies, / I was not enterely innacurated./ The mourning dove / is not mourning; it’s a song we’ve translated / in error.” / Nas minhas imprecisões/ Eu não fui inteiramente impreciso./ A pomba enlutada / não está cantando o luto; seu canto é uma canção que traduzimos / erradamente.”

A estrofe seguinte prepara o salto da aparente descrição de um ponto de contato entre duas línguas a uma póetica nova a ser construída com as invenções da antiguidade: “But bring the dove into to my work / How shall I warble myself? / Mas, para trazer a pomba `a minha obra / Como devo, eu-mesmo, trinar?” E o próprio poeta responde na estrofe seguinte: “I’ll be a mockingbird/ in my dictionary perched / and with the mourning dove’s meter / sing back: / Eu serei um pintassilgo / empoleirado no meu dicionário / e, com o metro da pomba rola / responderei cantando:

dawn’s dooms,                                               a sina da aurora

                                      dew-                                                                   orvalh-

                                      strew                                                                    alastrou

O poema termina com três estrofes mais desses exercícios de “espondeu”, o verso greco-latino de apenas duas sílabas longas, mesmo ritmo do canto da pomba rola, a que Lorenz se referiu, logo na primeira estrofe. Tratamento ao mesmo tempo erudito e intuitivo do tema, que prova o seu domínio da poesia, arte verbal que escolheu como expressão.

Pensando em pássaros, atravessei a rua Dez Leste no. 331, endereço da biblioteca, em direção `a Tompinks Square Park, que lhe empresta o nome. Uma praça, como daqui em diante a chamarei, embora sabendo que os nova-iorquinos sempre acrescentam `a palavra square (que designa uma praça, embora a palavra se refira, literalmente, apenas `aquelas de formato quadrado), a palavra park / parque, quando a praça é muito grande, como neste caso.

Antes de sair, troquei um dedo de prosa com Mercedes Roffé, cuja editora produz livros-objetos, bilíngues e belíssimos. Junto com Marta López Luaces (também professora da Montclair U.) curadora do programa Readings@Tompkins / Bilingual Poetry Series, onde o evento de sábado se incluía, Mercedes Roffé promove, de fato, encontros de autores de língua inglesa com os das outras línguas - muitas - também faladas no bairro onde a biblioteca se encontra. A inclusão do português, sua iniciativa, é muito bem-vinda.

Ainda tive tempo de ver o grupo humano que relutava em sair do salão de leitura localizado ao nível da calçada: pessoas humildes de terceira idade, jovens moradores de rua, crianças, cujas famílias, presas nos seus locais de trabalho, transformam os bibliotecários em baby-sitters, trabalho para o qual não foram treinados. Por outro lado, o salão espelha o esforço que a equipe da Biblioteca Pública realiza nas dezenas de unidades que mantém em toda a grande New York. Estavam expostos livros recentes sobre os mais variados assuntos, para adultos e crianças. Filmes em DVD, mapas. Tudo disponível, para empréstimo, ou leitura nas dependências da biblioteca.

Visto do centro da praça, o prédio da biblioteca emoldura a quadra de basquete e seus usuários.

Visto do centro da praça, o prédio da biblioteca emoldura a quadra de basquete e seus usuários.

Lá fora, a ensolarada tarde de primavera nos convidava a um passeio. Na belíssima Praça Tompkins as árvores centenárias nos recordavam que, apesar do eterno trabalho humano de direcionar essa cidade ao futuro, ela está ancorada num passado rico de gente que persistiu e persiste em viver, muitas vezes em condições terrivelmente adversas. Estavam na praça. Jogando basquete, ou conversa fora, usavam seu espaço.

Claro que o saxofone de Charlie “Bird” Parker me soprou aos ouvidos as últimas palavras. Ele viveu na Tompkins durante o período mais estável de sua vida (1950-54). Das janelas do apartamento térreo da casa geminada de número 151 da Avenida B, onde ele morou, podia contemplar suas árvores e os pássaros que elas abrigam. Uma das lendas sobre a palavra bird / pássaro, adicionada a seu nome, está relacionada com esse endereço. Dizem que, por tocar na praça, `a primeira luz do dia, voltando das gigs e das suas esticadas, associavam sua música ao canto do galo da madrugada, também chamado de bird, entre a gente mais pobre. Outra, que os vizinhos, encantados com o som maravilhoso que tirava do sax, passaram a chamá-lo de “pássaro”. Tudo isso escutei, lá mesmo na Tompkins, além de excelentes músicos e cantores de jazz, recém transformada em moradora de New York, em 2012, durante o Charlie Parker Jazz Festival que celebra anualmente, em pleno verão, a data de aniversário do músico: 29 de agosto.

Casa de Charlie “Bird” Parker na Tompkins Square Park.

Casa de Charlie “Bird” Parker na Tompkins Square Park.

Charlie Parker Jazz Festival na Praça Tompkins. Em 2019, sua 27a. versão, será no dia 25 de agosto.

Charlie Parker Jazz Festival na Praça Tompkins. Em 2019, sua 27a. versão, será no dia 25 de agosto.

Músicos tocando na praça, no último sábado.

Músicos tocando na praça, no último sábado.

 A fama do sax de Charlie “Bird” Parker ainda estimula músicos a tocar na praça por qualquer gorjeta. Como os que estavam lá nessa tarde e que até “Garota de Ipanema” tocaram. Pude apreciar a boa improvisação feita pelo saxofonista, o melhor do grupo.

Já com fome, saímos em busca de um lugar para tomar um café, o que não foi difícil,  graças ao grande número de cafés, bares e restaurantes recentemente inaugurados nas ruas próximas. Decidimos por um francês, por mais vazio e tranquilo e pelo jazz, de muito boa qualidade, como música ambiente. Apesar do dono ser, de fato, francês, quase todos os funcionários eram mexicanos, ou latino-americanos, a última das levas de imigrantes a ocupar o bairro, que já foi alemão, judeu e ucraniano.

1988, na Praça Tompkins. Protestos violentos contra a expulsão dos que a ocupavam e contra a consequente gentrificação do Lower East Side, parte da cidade onde a praça se localiza.

1988, na Praça Tompkins. Protestos violentos contra a expulsão dos que a ocupavam e contra a consequente gentrificação do Lower East Side, parte da cidade onde a praça se localiza.

Tentei imaginar como seria a Praça Tompinks antes da sua gentrificação, principiada nos anos 90, em seguida a um grande motim dos moradores de rua e desempregados que lá viviam. Desde 1950/60, seu nome e até sua caracterização como praça tinham sido esquecidos pelo resto da cidade: ela era apenas o Needle Park / Parque das Agulhas, nome adquirido em razão dos que buscavam o esconderijo da sua vegetação para usar drogas pesadas.

Pensei, finalmente, na repetição infinita desse processo. Primeiro, toleram e estimulam o capital ilícito que a droga põe em movimento, enquanto o capital lícito corta os direitos dos trabalhadores e os expele tão pronto não se adaptam ao que lhes exige. A exclusão humana assim concretizada, não tendo pra onde ir, ocupa as ruas e outros espaços públicos, como as praças, os jardins e as bibliotecas públicas, tornando-os lugares desagradáveis para o público acostumado a utilizá-los. Daí a que aceitem o seu fechamento ou a sua descaracterização, é um pulo.

No momento, o governo federal ameaça fechar as bibliotecas públicas do pais. Como já fez, sob Reagan, com os Centros Comunitários de Saúde Mental (públicos). A desintoxicação, hoje, só está disponível da classe média alta para cima, em clínicas caríssimas, escondidas nos subúrbios como spas, ou eufemismos similares.

Os moradores conscientes de New York, estamos na luta pelas bibliotecas públicas. Com abaixo-assinados e mensagens massivas pelas redes sociais, além de outros recursos, tentamos barrar o processo. Devemos conseguir, mas então virá outra luta e mais outra. Até quando?