Cem anos da New School e o 5 de Maio Mexicano(?) nos Estados Unidos
No último sábado, como todo princípio de mês, lá estava o belo, gratuito e competente jornal West View News, deixado na portaria do edifício onde moro. A notícia de capa de maio é o centenário da New School. Nesta universidade formou-se a dramaturga e fundadora do Living Theater, Judith Malina, personagem dos meus Diários da Patinete. Sem um pé em New York. Ela é, também, uma das pessoas a quem dedico o livro. Razões, portanto, suficientes para despertar meu especial interesse por esse número do jornal do meu bairro, aqui em New York. Além disso, conheço bem a universidade porque minha filha graduou-se na Parson School of Design, afiliada `a New School.
Sede antiga (e ainda em uso) da New School na 5a. Avenida, tendo ao lado ao lado a Parsons School of Design.
Mergulhei na leitura do artigo.
O primeiro capítulo do livro A Drama in Time / Um Drama no Tempo, que conta a história da instituição, está incluído na matéria. Seu autor, John Reed, é um dos seus professores. Reed começa respondendo a uma pergunta, dentre as muitas, que em geral se faz ao descobrir que a New School não é tão nova assim. Tampouco é uma “escola”, já que se trata de uma universidade. Portanto, por que recebeu esse nome? Por que a necessidade de marcar, no nome, a sua novidade? A curiosidade já revela o ato contestador incluído na fundação, em 1919, da New School For Social Research / Nova Escola de Pesquisa Social, em New York.
Naquele ano, a cidade já contava com várias universidades, a maioria delas privadas e /ou religiosas. Lembro que a palavra inglesa College, que aparece em muitos nomes das instituições citadas aqui, hoje sinônimo de universidade, indicava, na Inglaterra medieval, o lugar onde um estudante se inscrevia para adquirir o conhecimento de mais alto nível, especialmente religioso. Com a chegada do Renascimento e da busca do conhecimento mais voltado ao universal, ao mesmo tempo em que surgiam diferentes especialidades, surge a palavra university para indicar o aglomerado de colleges onde o aluno vai buscar um diploma e / ou uma profissão. Entre os colleges / universidades do tempo colonial, a mais antiga de New York é a Collegiate School / Escola Colegiada, nascida em 1628 e até hoje reservada apenas aos rapazes. Foi fundada pela Companhia (Holandesa) das Índias Ocidentais dois anos depois da Cia. ter comprado a Ilha de Manhattan dos índios Lenape, seus habitantes originários, por 25 dólares, ao preço de hoje. A Assembléia Regional da Igreja Reformada da Holanda foi a co-fundadora dessa primeira universidade. A segunda foi a Trinity School (mista, fundada em 1709), sustentada pelos missionários anglicanos e seus fiéis até 1968, quando a escola cortou os laços com a igreja. A terceira, fundada em 1754 da mesma forma que o King’s College, de Londres, através de uma “carta régia” de George II, da Inglaterra, é a Columbia University / Universidade de Columbia. Das três, a única dedicada exclusivamente ao ensino superior. Essa origem aristocrática permaneceu entre o alunado, recrutado nas classes abastadas da cidade, cujas famílias podiam – e podem - pagar os altos custos da educação nela recebida.
Contra essa predominância, surge, já no país independente, a New York University, fundada em 1831 por ricos comerciantes, banqueiros e homens de negócios, onde o critério de admissão seria o mérito, em lugar da classe social. Esse modelo mais democrático, seguia o da Universidade de Londres, fundada para atender aos estudantes de todas as partes do Reino Unido, diminuindo, com isso o privilégio restrito `as medievais Oxford e Cambridge. O projeto da NYU foi apresentado `a prefeitura e ao Estado de New York, que o rejeitaram. Os próprios fundadores, então, através do que hoje se chama crowd funding, conseguiram arrecadar os 100.000 dólares que bancaram sua independência de qualquer instituição religiosa, além da sua primeira sede na parte sul da Ilha de Manhattan, logo transferida para a Washington Square Park, onde até hoje se localiza.
De maneira semelhante, o bispo católico (irlandês) John Hugues, funda em 1840 o Saint’s John College, na cidade de Fordham, no Bronx, que mais tarde passou a dar nome `a universidade. Depois de angariar localmente 10.000 dólares, Hughes viaja `a Europa, onde, chamando a atenção dos católicos sobre a dificuldade dos fiéis dessa religião nos Estados Unidos, conseguiu o suficiente para adquirir o terreno onde até hoje ela se situa. Convence também os jesuítas a serem seus professores. Outra escola católica, o College of Mount Saint Vincent / Colégio do Monte São Vicente só para moças, surge em 1841, fundado pelas freiras da congregação Sisters of Charity of Saint Vincent de Paul of New York / Irmãs de Caridade de São Vicente de Paula de New York.
Só em 1847 uma universidade de fato “pública” (e laica) apareceu em New York City: a Free Academy of the City of New York / Academia Livre de New York, fundada pelo diplomata e homem de negócios Townsend Harris, com o objetivo de oferecer livre educação para os pobres e filhos de imigrantes. Sua primeira turma de homens (as mulheres só foram admitidas em 1930), de diversas raças e classes sociais, graduou-se em 1853. Em 1866, a Academia Livre recebe o nome de The College of the City of New York / Colégio da Cidade de New York. Em 1961, quando o sistema City University of New York / CUNY se inaugura, esse College, ainda instalado no belo prédio neo-gótico construído em 1906, passa a chamar-se City College of CUNY / City College da Universidade da Cidade de New York / CUNY. Fui professora do sistema CUNY por seis anos, estando lotada no Graduate Center / Centro de Pós-Graduação, localizado na 5a. Avenida, no. 365. Foi uma experiência muito rica, por mostrar-me outra face das universidades americanas, muito diferente da adquirida numa Ivy League (Yale University), onde até então trabalhara.
Portanto, a New School, baseada numa pedagogia inovadora, é o clímax da contestação do modelo adotado pelas “old schools / velhas escolas” da cidade. Sua principal diferença foi ter sido inteiramente fundada por professores. Com exceção de Thorstein Veblen, todos com a carreira iniciada na Universidade de Columbia, de onde saíram para fundá-la, por “razões políticas, de liberdade acadêmica, de filosofia educacional, ou as três” (Reed, West View News, Vol.15, no. 5, May 2019, p. 1). O escândalo da demissão do primeiro deles, J.E.Springarn, por discordar da participação dos estudantes, como soldados, na Primeira Guerra Mundial, foi seguido do pedido de demissão dos professores James Catell e Henry Dana, abertamente pacifistas, seguido pelo de Charles Beard, que num livro de 1913, segundo resenha do New York Times `a época da sua edição, tinha cometido o pecado de “mostrar os fundadores da república americana e da sua Constituição, como um círculo fechado de especuladores de terra” (Reed, p.5) e outros “defeitos” mais. Thorstein Veblen, autor de dez livros, dos quais o primeiro, The Theory of the Leisure Class / Teoria da Classe Ociosa (1899), tem até hoje muitos leitores (como eu, por exemplo, que o acho um livro fascinante), na época trabalhando em Washington, junto ao presidente Woodrow Wilson, num acordo de paz após a Primeira Guerra, se junta ao grupo fundador e dissidente de Columbia, cujo último professor demitido foi James Robinson, a quem um presidente anterior a Wilson, Theodore Roosevelt, já havia acusado de “vergonhosa reversão da verdade histórica.” (Reed, p.5).
Como tinha acabado de chegar da rua, onde grupos de mocinhas, com os cabelos cobertos de flores, alegremente entravam nos bares e restaurantes do bairro em busca da “fiesta mexicana” de 5 de Maio, não pude deixar de me lembrar, neste ponto da leitura, desse velho Roosevelt, o primeiro a aplicar a doutrina Monroe `a política americana para a América Latina. As moças festeiras, ao adentrar os bares, não se lembram disso, é claro. Tampouco sabem que o “5 de Maio”, no México, é lembrado apenas em pequenas cerimônias oficiais que marcam a vitória mexicana numa batalha (na cidade de Puebla, em 1832), contra os franceses que ocupavam seu território. Seu valor simbólico reside no fato de ter sido vencida pela população que ajudou o seu exército a vencer a bem treinada e equipada tropa de Napoleão III. No entanto, revertida com a posterior chegada dos franceses `a cidade do México, onde estes entregam o poder central do país ao “imperador” francês Maximiano III, a Batalha de Puebla perde sua importância inicial.
Para os alegres jovens americanos, no entanto, o 5 de Maio se inclui na farra que marca o fechamento do ano letivo, coincidindo, também, com o final do campeonato nacional de futebol americano, o esporte mais popular do país. Embora ainda faça frio, todos tiram do armário roupas mais frescas, especialmente se o dia é de sol, como foi o caso desse sábado. Enfeitam-se “como” as mexicanas - Frida Kahlo massificada como modelo - e mexicanos (chapéus de aba larga para os homens). Tudo estimulado pela decoração dos bares com as mesmas flores que as moças trazem nos cabelos e com tiras de papel crepom colorido, originalmente desenhado `a mão, com tesoura, mas hoje vendido a metro nas papelarias. As vezes, como na foto abaixo, incrementam o visual com um design, digamos, mais “moderno”.
Festa recente do 5 de Maio em New York City.
As moças não sabem, ou esqueceram, que essa festa é, na verdade, americana, já que foi celebrada pela primeira vez durante a “corrida do ouro” na California, pouco antes anexada ao território americano como um Estado “livre”, assim como Arizona, Colorado, Novo México e Texas, que também pertenciam ao México. A iniciativa de celebrar a data, assim que receberam a notícia da vitória em Puebla, partiu dos mexicanos nascidos na parte anexada, ou recém imigrados do norte do México, onde se localiza a cidade de Puebla. Com a Guerra Civil americana ainda em curso, se viam na iminência, caso os confederados a vencessem, de perder a liberdade adquirida com a independência do México, que tinha trazido com ela a abolição dos escravos e a igualdade racial.
Portanto, as moças recordam corretamente, com o 5 de Maio, sem o saber, o México-americano que lhes entrou pela comida, pelas margheritas e outros tragos `a base de tequila ou mezcal; e pela língua espanhola, ouvida a cada minuto, a tal ponto que hoje está nos sobrenomes de representantes eleitos para as Câmaras legislativas dos Estados Unidos. Mas o que as moças mais guardam de tudo isso é a cultura da siesta-fiesta com que etiquetam os supostos donos da festa, da qual se permitem participar uma vez por ano.
Festa contemporânea do 5 de Maio numa pequena cidade da Califórnial, estado que mais celebra o 5 de Maio. Como se vé, de uma maneira mais “mexicano” e folclórica.
Será que as moças sabem que a política externa do presidente Roosevelt, acima citado, se reedita agora na atual presidência do país, que muitas delas odeiam? Será que suspeitam que esses seus dois presidentes aplicam a “Doutrina Monroe” (documento de 1823) do presidente James Monroe, que estipulou o protetorado da América Latina pelos Estados Unidos, nele contida? Aquela, que sob Roosevelt, ficou conhecida como a política do Big Stick / Grande Porrete?
Uma das primeiras aplicações da “doutrina Monroe” deu-se no Peru, detentor da maior reserva do petróleo da época, o “guano” (excremento dos pássaros marinhos acumulado nas ilhas costeiras daquele país), muito cobiçado como fertilizante, matéria prima essencial nos países predominantemente agrários daquele tempo. Antes de ser extraído até o seu desaparecimento, a corrida ao guano causou a morte de muitos peruanos. O líder do movimento que tentou conter tal destruição, morto em combate, se transformou num dos heróis reverenciados do seu país.
Dançando a música latina que as carrapetas dos DJs não param de tocar, as moças de cabelos floridos devem esquecer-se de que a ajuda americana na derrubada do Império Espanhol na América, concretizada em 1898, foi estendida indefinidamente pela doutrina de Monroe, segundo a qual essa ajuda se perpetuaria numa espécie de protetorado dos Estados Unidos ao resto da América. Seu primeiro resultado foi a anexação de Porto Rico e das Filipinas ao território americano, fazendo de Cuba uma espécie de seu satélite.
Como sei de tudo isso e nunca, por mais que tente, disso me esqueço, foi muito bom confirmar que sempre houve, nos Estados Unidos, intelectuais que se insurgiram contra o pensamento autoritário de seus superiores e de seus governos, como esses professores, faz um século, fizeram. Fundando uma universidade que sequer queriam que tivesse esse título. Uma “escola” que contribuísse na formação de um pensamento crítico. Para isso, trouxeram da Europa professores perseguidos pelos nazistas na época da Segunda Guerra Mundial. Dentre eles, Edwin Piscator, companheiro de Brecht na criação do teatro épico-político, que ensinou tudo a americanos como Marlon Brando, Tennessee Williams, Judith Malina e Julian Beck. Os dois últimos, fundadores do grupo americano Living Theater, influenciador de mudanças radicais do teatro ocidental. E preso no Brasil durante a ditadura militar.
O mais novo edifício de New School, inaugurado em 2014.
A celebração do centenário da New School continuará pelo resto do ano. Mantenham-se ligados nela, porque valerá a pena conhecer melhor a atividade dos professores e artistas cujo trabalho nessa universidade incentivou e assegurou o desenvolvimento de um pensamento alternativo e progressista no país onde nasceram, expandindo-o a outros países e outras culturas.