Ares e subterrâneos de New York: caixas de surpresa
Que New York é uma cidade dançante e sonora todo mundo sabe. Parte de sua fama e da qualidade com que ela se vende vem do jazz, do hip-hop, dos dançarinos de rua e das casas de espetáculos de música e dança erudita. Até da maneira meio ritmada da fala da gente daqui. Mas nem todo mundo sabe que a música de New York pode vir dos lugares mais inusitados. Dos ares, por exemplo. Eu, que escolhi morar num andar em acordo com as possibilidades humanas de contato com a natureza, tenho, na primavera, o canto dos pássaros para acompanhar os meus dias.
Em lugar do silêncio do inverno, que também tem sua beleza, a primavera se anuncia com os pássaros em alvoroço. O tempo é pouco pra fazer a corte, conseguir companheiro(a), construir um ninho e criar os filhotes. Tudo isso assisto da janela do meu 4o. andar, situado justo na linha do beiral do edifício em frente ao meu, que, por muito antigo (uns cem anos de idade, mais ou menos), tem nele um buraquinho onde, todos os anos, entram os pássaros, gravetos no bico, para confeccionar os seus ninhos.
Os nossos velhos conhecidos pardais são os primeiros. Ágeis e gregários andam em casais, ou em bandos de casais. Hoje, vi o primeiro common starling, um pássaro preto, com pintas brancas ou meio douradas, se há sol para iluminá-las. Preferem reunir-se em bandos e cantam bonito. Depois vêm as rolinhas, que em inglês se chamam pombas de luto (mourning doves) por alusão ao seu canto, considerado triste. As nossas, por serem de plumagem mais chegada `a cor púrpura, me parecem mais bonitas do que os diferentes tons de marrom que mostram as rolinhas aqui
Os últimos a aparecer, com a plumagem mais bonita de todas, são os blue jays, de penas em diferentes tons de azul, quase do tamanho de um pombo comum.
Estes, os pombos, são, aqui também, uma praga. Estão pelas ruas nas quatro estações do ano, iguaizinhos aos brasileiros e aos europeus. Contudo, no ano passado, tive o privilégio de ter por duas horas o seu predador diante dos meus olhos: um falcão belíssimo estacionou na escada de incêndio que temos diante de nossas janelas. E me fez entender porque caça com facilidade: voa sem provocar um ruído sequer.
New York também é sonora nos subterrâneos. Desde que me mudei pra cá, já lá se vão sete anos, no corredor de acesso aos trens da estação de metrô que me serve, há um senhor baixinho, de turbante e barba crescida, que toca, de pé, um tarol com duas baquetas, sem parar. Apenas ritmo. Sem letra, nem melodia. Todos os dias. Personagem do bairro, também desfila, mais ou menos `a paisana, na parada anual de Halloween. Poucos lhe dão dinheiro (o que leva esses músicos ao subterrâneo), mas ele segue ali, sempre com um meio sorriso quando alguém o reconhece e cumprimenta.
Mais interessantes são as estações onde se cruzam várias linhas, porque podem estender-se por muito espaço, com diferentes saídas. Na semana passada, entrei na enorme estação da rua 42 por um lugar nunca antes trilhado. A escada de acesso me levou a uma rua enorme, de duas pistas, só que subterrânea. O espaço era tão grande que um rapaz treinava toques de bola (de futebol brasileiro) com as coxas. Sorri pra ele, que me retribuiu o sorriso. Ao longe, já escutava uma voz soul, feminina, entoando “All night long (all night)...”, canção de Lionel Richie, de 1983. Quase um hino da soul music, sua letra hedonista propõe “jogar no lixo o trabalho por fazer e deixar a música tocar a noite inteira, porque é tempo de festa [em todas as línguas da cidade]: “Parti', karamu', fiesta,” Porque “a vida é boa, selvagem e doce”.
Quem pode resistir a um apelo desses, além de tudo, recitado num ritmo convidativamente cadenciado em plena tarde de trabalho? Eu fui até onde a música me chamava quase correndo e, claro, já dançando. A platéia da moça, que se acompanhava com uma pequena caixa de som, era um semi-círculo muito amplo, todos sorridentes, feito eu, dançando. O vestido negro como sua pele, com suas listras brancas nas laterais, no sentido vertical, lhe adelgaçava a figura pequena e simpática. Tinha uma voz treinada e bonita. Minha gorjeta, agradecida por ela com um olho no olho sorridente, juntou-se a muitas mais, na cesta que ela mantinha no chão, com esse fim. Segui meu caminho por outra rua subterrânea, certa de que a vida nesta cidade é selvagem, não sei se doce, mas boa.
Um ano depois de que essa música de Lionel Richie estourou nas paradas, 1984, fiz minha primeira viagem `a New York. A notícia mais surpreendente, ao aqui chegar, era o aparecimento de jacarés nos esgotos da cidade (embora essa lenda já tivesse sido registrada nos anos 20-30 do século xx). Nos anos 80, suspeitava-se de que, trazidos de seu habitat natural como animais de estimação, terminavam por encontrar, nos esgotos, o ambiente de maior semelhança com ele. A selvageria, portanto, não era apenas uma metáfora.
Na estação da rua 14 com a 8a. Avenida, lá está, esculpido em bronze, o jacaré, saindo dos esgotos para agarrar pelo traseiro um corrupto que tenta escapar. Cena observada por uma passageira.
O escultor, Tom Otterness, explica que decidiu incluir o mito do jacaré no conjunto de sua obra sobre a corrupção em New York, exposta naquela estação. Nesses tempos de guerra contra a corrupção, vale e pena aproveitar a passagem pelos subterrâneos da rua 14 para perceber quão antigo é o problema. Algumas das esculturas retratam grandes capitalistas e políticos de New York nela envolvidos no princípio do século xx, tendo como modelos cartoons que os criticavam nos jornais da época.
Os corruptos da atualidade também têm tudo a ver com essa estação, já que ela dá acesso aos pontos turísticos hoje mais populares de New York: a High Line e o Hudson River Park. Sobre a obra que os construiu, faz tempo estourou um escândalo. Segundo o New York Times, que seguiu a história por um bom tempo, as corporações que bancaram o embelezamento da área em decadência em troca de isenção de impostos municipais para as suas novas sedes, para lá transferidas, exigiram da cidade, uma vez instaladas, a extensão de uma das linhas do metrô, de modo a torná-la acessível a seus executivos. Com esse dinheiro, dizem os críticos do projeto, se renovaria todo o sistema de sinalização do metrô, no momento em desastre completo.
A estação final dessa nova “perna” do metrô, a Hudson Yard, recém-inaugurada, tem a seguinte definição ao clicar-se o nome do “bairro” (que não existia até ser inventado pelas corporações que o construíram): “Hudson Yards é um empreendimento imobiliário situado entre os bairros do Chelsea e do Hudson Yards, em Manhattan, New York City. É o maior empreendimento imobiliário privado dos Estados Unidos, em área construída.” https://en.wikipedia.org/wiki/Hudson_Yards As críticas `a essa primeira parte recém entregue a seus usuários foram muitas, quase todas condenando o exibicionismo da arquitetura do seu entorno.
Foi também em 1984, nos subterrâneos de New York, que nasceram as Tartarugas Ninjas, fonte de renda inestimável para a cidade.
Criadas pelos cartunistas Kevin Brooks Eastman e Peter Laird, as quatro tartarugas antropomórficas, porque mutantes, têm nomes de artistas da renascença italiana: Leonardo, corajoso e preocupado com o bem comum; Donatello, que ama a ciência e a tecnologia; Michelangelo, que gosta de jogos e brincadeiras inventivas; e Rafael, que prefere a natureza e os esportes de desafio físico. Combatem, como Batman, os criminosos, só que treinados por um mestre da luta japonesa ninjutsu, de onde vem o seu nome. Perseguindo dos batedores de carteira aos grandes chefões, os quatro, ao contrário do fino milionário morcego seu antecessor, usam táticas de guerrilha e preferem manter-se na clandestinidade garantida pelos subterrâneos de New York. Esse lado ocidental dos personagens se mistura aos ninjas japoneses, espécie de espiões e sabotadores do Japão feudal, ao mesmo tempo dotados de capacidades super humanas e maravilhosas, como a invisibilidade, a capacidade de voar, de mudar de aparência e de controlar os quatro elementos através da arte marcial. Para melhor desenvolver essas aptidões, se isolavam em castelos afastados do resto da sociedade.
Mas nem tudo nos subterrâneos de New York suscita o maravilhoso. No inverno, seus corredores gelados estão cheios de moradores de rua dormindo como podem, ou como os deixam lá ficar. Quanto aos ares, também podem ser vendidos, como os que encimam a enorme estação de metrô e de trens interestaduais da rua 42, a Grand Central Station, elegantíssima quando de sua inauguração, no ano de 1913. Em inglês, os imóveis, ou melhor, a propriedade imóvel, chama-se “real estate” que, literalmente, significa propriedade real e idônea. Como se pode ler no site da estação: “Empresários sempre venderam a propriedade “real”. Mas a Estação Central de New York foi pioneira em vender a propriedade “irreal”, ou seja, o espaço vazio que se localiza acima dessa propriedade real”.
Embutindo as linhas, de metrô e de trem, em túneis, os engenheiros da Grand Central Station liberaram os terrenos das ruas acima deles para os edifícios do bairro que hoje se chama o Midtown / “miolo” da cidade, dando partida ao boom de construção, `a volta dela, dos arranha-céus que são a marca de New York. Por trás da bela fachada neoclássica da Grand Central Station, subiu o enorme edifício da companhia de seguros Metlife, engolfada pela crise de 2OO8. Em seguida, a empresa deixou todos os andares que ela ocupava completamente vazios. De humanos e, imagino, de pássaros também.
Mas isso é uma outra história, que não deve ser contada na segunda-feira seguinte a um domingo de Páscoa que, espero, tenha sido muito alegre pra você e pra todos a quem você bem quer.
Nota: Para mais fotos e outros detalhes sobre a obra do escultor Tom Otterness, ver a página do artista: http://www.tomostudio.com/
Quanto `a Grand Central Station, ela merece a visita guiada que a estação oferece. O tour mostra partes dela que não se vê, as mais antigas, ainda do tempo em que havia lá apenas uma estação de trens. É uma viagem no passado de New York e do país. Outra atração do terminal é seu restaurante de ostras, famoso, aberto e funcionando no subsolo. Vejam no link https://www.grandcentralterminal.com/history/.