Estranhar, estrangeiro: Uma poeta (portuguesa) em New York
Alguns lugares de Manhattan têm a palavra place / lugar agregada `a sua designação, sempre seguindo um nome próprio terminado com o “‘s” do indicador possessivo. Ou seja, trata-se do “lugar” de alguém, ou de algum edifício que, por sua importância na vida da cidade ainda pequena, era uma referência. É o caso da parte leste (entre a 3a. Avenida e a Avenida A), da rua 8, localizada no East Village, mais conhecida por Saint Mark’s Place. Tal nome designa o edifício da igreja episcopal do mesmo nome, uma das primeiras da cidade, que ocupa todo um quarteirão entre as ruas 8 e 9. Hoje, a igreja, voltada para a “justiça social”, continua fiel `a tradição alternativa do seu “lugar”. Os artistas da geração do novo milênio, impedidos pela gentrificação do bairro de lá viver, como o fizeram os expressionistas, nos anos 30, os hippies nos anos 60 e os do punk rock nos 80 do século anterior, só podem agora contar com a igreja que lhe deu nome para mostrar o seu trabalho. Atores, bailarinos, músicos e escritores têm, nas muitas horas não ocupadas pelo culto religioso, espaço para seus eventos. O Poetry Project, por exemplo, fundado e gerido por jovens poetas, lá mantém um calendário anual de leitura e performance de poesia.
Em vermelho, a parte da rua 8 Leste conhecida como “Saint Mark’s Place”. A igreja fica na esquina da 2a. Avenida, entre as ruas 8 e 9.
Nele se incluiu o lançamento do livro What’s is in a name, da poeta portuguesa Ana Luísa Amaral, traduzido ao inglês pela inglesa Margareth Jull Costa, no dia 11 de abril. A conceituada editora New Directions (que vem publicando a obra de Clarice Lispector) também cabe no perfil que a igreja traçou para suas mostras, já que desde 1936 se mantém como editora independente de excepcional qualidade. Ter um livro nela publicado representa, para o público culto dos Estados Unidos, um aval da sua obra.
Ana Luísa Amaral e a capa seu livro What’s in a Name?
Como o decorrer do evento mostrou, também nele coube a personalidade das duas artistas em cena – a poeta e sua tradutora – que, com muita facilidade, incorporaram na sua performance o microfone fixo que obrigava a baixinha Ana Luisa a levantar o corpo e a altíssima Margareth a abaixar o seu pescoço de cisne.
Transformado o problema inicial em parte do espetáculo, a língua portuguesa tomou o salão.
Só quem vive no exterior pode avaliar os muitos sentimentos envolvidos na emoção de ver e ouvir a “sua” língua em destaque no estrangeiro ambiente circundante. Especialmente quando ela se mostra em poesia, ou seja, no uso mais fino de se pode fazer de qualquer língua. Ana Luísa Amaral reflete sobre o tema no dos poema “A tragédia dos fados (ou dos factos)”, do qual destaco a primeira estrofe
“Ah, o destino frio de te falar
numa língua estranha,
outra que não a minha”
“Ah, the cold fate of having to speak to you
In a foreign tongue, a tongue
Not mine. ”
Filósofos, como Jacques Derrida, que definiu a língua como o último refúgio do estrangeiro, podem ajudar na sua compreensão. Compositores populares, como Caetano Veloso, cujo certeiro verso ”a língua é minha pátria” também o elaboram. Alguns, como o montão de brasileiros que no momento deixam o país, ao primeiro sinal do desastre para o qual a maioria deles contribuiu com seu voto, talvez não o sintam (ainda?).
Em 1942, o ser estrangeiro no contexto colonial deu título a um dos livros de Albert Camus, judeu francês-argelino (um pied noir, na terminologia da época). A história contada por ele com um tratamento existencial/absurdista em O Estrangeiro, ganhou em 2013, na Argéiia, uma nova versão. Escrita pelo árabe-argelino Kamel Daoud sob o ponto de vista de um irmão do “árabe” assassinado por Meursault, protagonista francês da obra de Camus. Daoud, com essa escolha, começa por dar ao “árabe” um nome e uma família. O romance, intitulado, em francês, Meursault, contre-ênquete foi publicado em 2014 na França. Em inglês, The Meursault Investigation apareceu em 2015, quando estive presente no lançamento, com a presença do autor, cuja fala inflamada provocou polêmica na mansão fronteira ao Central Park que abriga a livraria francesa Albertine (972 5th Ave.).
Ana Luísa Amaral trata, sem panfleto, do colonialismo. Em “Lugares comuns” (p.50-53), do qual seleciono a primeira e a última estrofe, por exemplo. Esclareço que, segundo ela, “um café manhoso”, do português de Portugal, corresponde a um “botequim pé sujo” no português do Brasil.
“In London I went
into a greasy spoon (it’s not only us
who have greasy spoons, the English too
and they once had other things now
it’s only Scotland and a little bit of Ireland and those
little tiny island, but anyway)
………………………………………
and I thought that doesn’t matter if it’s London or us,
that everywhere
you find the same.”
“Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também
e eles também tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e um pouco da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mas adiante)
..........................................................
e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda parte
as mesmas coisas são.”
Na véspera (10 de abril), Ana Luísa esteve num ambiente que lhe é muito familiar, sendo professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Universidade do Porto, em Portugal: a Universidade de Columbia. Lá, onde não estive, me disse ela estar repleto o recinto reservado para o evento Talking Translation with Margaret Jull Costa and Ana Luísa Amaral, pelo Programa de Tradução e Escrita Criativa da Escola de Artes da Universidade.
Naquela instituição acadêmica o “place / lugar” da poesia ibérica pertence a García Lorca, que em Columbia viveu, como estudante, entre 1929 e 1930. Embora Un poeta en Nueva Iorque, livro onde ele elabora poeticamente sua estada na cidade, só tenha sido publicado depois de sua morte, os críticos literários são unânimes em afirmar que New York mudou radicalmente a obra do poeta espanhol.
A passagem rápida de Ana Luísa Amaral por New York, uma entre várias, anos afora, não mudará sua obra, porque nada nela necessita de mudança. E esse texto meu pretende ser, além de um agradecimento pelo prazer estético que ela ofereceu ao seu publico, o que a última estrofe do seu poema “Ondas gravitacionais: registos” (p. 122-123) define:
“Nothing was heard, nothing was seen,
Not clearly at least but it’s what we call
In our language, one created and learned
on o blue planet: a trace.” ”
“Não se ouviu nada, nada foi visto
Claramente visto, mas é o que se chama
Nesta língua de nós, criada e aprendida
Em formato de azul: registo.”