Batman e os coraçõezinhos de Galinha
Numa das primeiras viagens no metrô de New York desde meu recente retorno do Rio de Janeiro, fui atraída pela capa do amNewYork, jornal gratuito distribuído nas suas estações. Nela, a silhueta dos arranha-céus da cidade remetia para a matéria principal, assinada por um jornalista chamado Ivan Pereira: Batman fez 80 anos neste ano, mais precisamente no dia 30 de março.
Seu argumento básico: sem a cidade e a epidemia de crime que ela experimentava naquele 1939 do seu nascimento, o morcego super-herói jamais existiria. Ainda segundo o artigo, a revista e editora Dectetive Comics / DC Comics, onde as histórias do “Cavaleiro Negro” estrearam no seu número 27, naquela data, celebra o redondo aniversário com o lançamento da coleção Detective Comics: 80 Years of Batman.
Nunca fui fanática por quadrinhos, muito menos por super-heróis. No entanto, eles se meteram na escritura dos meus Diários da Patinete. Sem um pé em Nova Iorque, com Batman na dianteira. Logo nos primeiros capítulos. Parece, portanto, estar certo o jornalista citado, nosso conterrâneo, ou o descendente de um deles. Pois quem mais carregaria tal nome e sobrenome? Não sei se a gente formada na cultura de língua portuguesa tem mais sensibilidade para o simbolismo dos super-heróis, mas sobre a relação do Brasil com a terra de Batman, seguem alguns episódios recém vividos.
Por ora, me pergunto qual seria o super-herói que New York produziria hoje.
Começo pelo aeroporto da nossa chegada. Contratado um táxi no ponto oficial, nos coube um jovem bastante apto a encarregar-se das malas e de nos levar`a “City”, onde ele, com dificuldade, percebeu ser o nosso destino. O diálogo que sempre tento com os taxistas, em qualquer lugar do mundo, não prosperou. O rapaz mal entendia inglês e falava apenas o mínimo necessário ao seu trabalho.
Livre do pesadelo que eu lhe impusera, ligou algum aparelho eletrônico através do qual se manteve conectado, por chat e em alto volume, com mais duas outras vozes masculinas, durante a hora inteira que durou o percurso. Falavam em pashto, a língua majoritária do Paquistão, segundo apurou “o meu marido Carlos”, ao pagar a conta.
Uma semana depois, fui ao dentista; viagem que, outra vez, teve seus percalços. Quase chego atrasada, porque o trem parou inesperadamente entre duas estações e mecânicos levaram uns bons minutos correndo entre os vagões `a procura do doido que teria puxado o freio de emergência, segundo o aviso transmitido pela voz do condutor. O sentimento de não querer embarcar numa atitude politicamente incorreta me fez desviar os olhos da principal suspeita: a mulher negra, aparentando cinquenta e poucos anos, mas ainda delgada e bonita, que entrava e saía do vagão onde eu estava, antes de dizer `a filha, pelo telefone emprestado por uma passageira, estar grávida e precisar dela para cuidar do filho que ia nascer. Tudo dito em tão alta voz, que metade do vagão tomava conhecimento da notícia e da resposta, do outro lado da linha. A voz madura da filha, sem sucesso insistia em conseguir o endereço do abrigo onde a mãe estaria morando, para que pudesse visitá-la. Na volta, apossou-se de mim o mesma dúvida quanto ao sentimento correto, agora em relação ao homem de meia-idade, branco e decentemente vestido que, em total delírio, caminhava pelo vagão, nesse horário mais vazio, entabulando diálogos furibundos contra pessoas invisíveis.
No dentista, professor da Faculdade de Odontologia de uma das mais prestigiosas universidades da cidade, fui atendida, na chegada, por um seu aluno estagiário. Seus enormes olhos verdes, a pele alvíssima e o cabelo oxigenado que só se deixava ver no alto da cabeça raspada, contrastava diametralmente com o tipo racial tanto do dentista, nascido de pais filipinos, quanto de sua atendente dominicana, a quem conheço muito bem. Tanto, que lhe recordei ser latino-americana, mas brasileira. Por isso, lhe pedi o favor de mudar a trilha sonora, velha conhecida de consultas anteriores, com que o Spotify me ameaçava pela próxima hora: uma série de rancheiras e antiquíssimos boleros mexicanos, encantadores enquanto o kitsch era o meu tema de estudos acadêmicos. Mas que agora, talvez pelo excesso de repetição, não poderia suportar.
Ao entender que eu era brasileira, o estagiário louro se entusiasmou. Me contou ser polonês. Mas tão fascinado pelo Brasil, que não quer terminar seu curso sem antes fazer um estágio no nosso país. Aconselhei-o a começar provando a comida brasileira aqui mesmo, em New York. Por exemplo, a do restaurante Berimbau (43 Carmine St, New York, NY 10014), no Greenwich Village. Disse-lhe ainda que seu professor, grande conhecedor do Brasil, também lhe poderia dar boas dicas. Por incrível que pareça, esse dentista, sem ter-me sido indicado por brasileiros, se hospeda frequentemente a um passo de onde eu vivo no Rio, numa casa de vila, reformada como uma villa italiana por outro dentista americano, seu colega.
Nisto, adentra o próprio, para começar o meu tratamento. Conto-lhe o assunto da conversa com seu aluno e lhe digo que acabava de recomendar-lhe um restaurante brasileiro, muito simples, esclareci, ao que ele me respondeu: “Melhor, porque esses são os melhores”.
E, em perfeito português, olhos revirados pela memória do prazer gastronômico, completou:
- E lá tem coraçõezinhos de galinha?
Agora me digam: que tipo de super-herói surgirá dessa New York contemporânea?
New York, 8 de abril de 2019.
Nota: O jornalista Ivan Pereira, num e-mail de 8-4-19, confirmou minha suspeita de sua origem na cultura de língua portuguesa. Seus pais são de Goa, hoje o menor estado da Índia. Mas até 1960, ele esclarece, Goa era uma colônia de Portugal. E sua maior cidade, acrescento, chama-se Vasco da Gama. Perfeito adendo a esta crônica. Obrigada, Ivan!